Leg press ou agachamento: Qual dá mais resultado na perna

Aparelho de leg press 45 graus vazio, com anilhas nos pinos, no piso escuro de uma academia, e ao fundo um rack de agachamento com a barra sem carga apoiada na altura do peito
Neste artigo

O aluno olha para a barra, olha para o leg press e escolhe pelo que dói menos depois. Depois pergunta se pode trocar um pelo outro. Vou mostrar o que os dois têm em comum, o que só um entrega e como eu decido qual entra no treino.

Qual a diferença entre o leg press e o agachamento?

Os dois são exercícios de cadeia cinética fechada: O pé fica fixo, apoiado no chão ou na plataforma, e é contra ele que o corpo trabalha. A cadeira extensora é o contrário, cadeia aberta, porque a ponta do membro fica livre. Muita gente inverte isso e acha que o leg press é primo da cadeira extensora. Não é: Ele é primo do agachamento.

O que separa os dois é o vetor de força e o grau de estabilidade. No agachamento a carga desce na vertical e quem sustenta é você: Tornozelo, joelho, quadril, coluna e a musculatura que estabiliza esse conjunto. No leg press o vetor é póstero-anterior, e quem sustenta o tronco é o banco. Quanto maior a estabilidade do exercício, maior a condição de se elevar a carga. É por isso que a placa do leg press sobe rápido: Parte do trabalho saiu de você e foi para a máquina.

Antes de qualquer número, uma ressalva que vale para o post inteiro: Ativação elétrica não é sinônimo de hipertrofia. A eletromiografia mede o sinal que o músculo emite naquele instante, sob aquela carga e aquela cadência. É útil para entender o movimento, não é a medida do músculo que você vai ganhar.

Leg press ou agachamento: Qual pega mais músculo?

Depende de qual músculo. Para quadríceps, os dois entregam. A diferença aparece em tudo o que está em volta.

Um estudo norueguês pôs 19 mulheres com cerca de quatro anos e meio de treino para fazer 3 repetições máximas em leg press, agachamento livre e agachamento na barra guiada (Saeterbakken et al., 2022). Mediu a atividade elétrica do reto abdominal, do oblíquo externo e dos eretores da coluna. Na ativação de tronco, o leg press ficou de 17 a 59% abaixo do agachamento livre e de 17 a 42% abaixo da barra guiada. Os autores recomendam o agachamento quando a intenção é pôr o tronco dentro da cadeia.

A carga levantada no leg press ficou de 47 a 54% acima da dos dois agachamentos. É a troca do post em um número: Mais placa, menos tronco.

E tem o achado que quase ninguém repete: Entre a barra guiada e o peso livre não houve diferença estatística na ativação de tronco. Quem foge do agachamento guiado com medo de perder tronco está fugindo de uma diferença que esse trabalho não encontrou.

No posterior de coxa, o leg press entrega pouco. Um trabalho clássico comparou agachamento, leg press e cadeira extensora: No leg press o quadríceps ficou entre 39 e 52% da referência isométrica do estudo e os isquiotibiais em 12%, e a coativação de quadríceps e isquiotibiais foi maior no agachamento do que nos outros dois (Wilk et al., 1996).

Isso não faz do agachamento um exercício de posterior. Eu sou direto nas aulas: O agachamento não é o que vai construir isquiotibiais nem panturrilha. Se o alvo são eles, entram cadeira flexora, mesa flexora, levantamento terra e trabalho específico de panturrilha. Nenhum dos dois resolve essa parte.

Quadro comparativo em escala de cinza entre o leg press e o agachamento: Carga na placa de 47 a 54 por cento maior no leg press, tronco de 17 a 59 por cento menos ativado no leg press que no agachamento livre, isquiotibiais em 12 por cento no leg press contra 39 a 52 por cento do quadríceps, joelho carregado nos dois com pico de compressão tibiofemoral aos 91 graus no agachamento, e reto femoral em segundo plano nos dois. No rodapé: A primeira linha compara peso levantado, a do joelho compara força de compressão calculada e a última vem das minhas aulas, e só tronco e isquiotibiais comparam atividade elétrica, e ativação não é hipertrofia
Figura 1. O que você ganha e do que você abre mão ao trocar o agachamento pelo leg press. Dados de Saeterbakken et al., 2022 e Wilk et al., 1996. A linha do reto femoral vem das minhas aulas, não desses dois estudos. Fonte: PAES, 2026.

O leg press substitui o agachamento?

Para quadríceps, ele cobre bem. Para o resto, não, e isso não é defeito da máquina: É o desenho dela. O banco existe para tirar de você a estabilização.

E isso pode ser o que a pessoa precisa: Mobilidade de tornozelo limitada, tronco que despenca na descida, um período em que a coluna precisa ser poupada. Em todos esses casos, é o banco que assume o trabalho que seria seu. Nas aulas eu digo de um jeito mais seco, e vale para qualquer caso: Não existe exercício proibido, a gente tem que analisar quem pode fazer o exercício. A pergunta não é se ele é inferior, é o que essa escolha custa.

Existe um detalhe que quase ninguém ajusta. A amplitude no leg press tende a ser reduzida, principalmente em quem é mais alto ou tem encurtamento, porque a plataforma não foi feita para todo tipo de corpo. Nesse caso eu aumento um pouco a carga e peço para congelar o fim da excêntrica. Congelar inibe o componente elástico. Sem isso, o aluno desce, quica no fundo e arranca com esse elástico, e a carga da placa deixa de ser a que o músculo ergueu.

Do lado do agachamento, a condição é outra: Sem mobilidade, sem hipertrofia. Não adianta insistir com a barra nas costas se o tornozelo e o quadril não deixam descer. Um teste honesto é o agachamento frontal: Se não sai nem com a barra vazia, o problema é mobilidade, e é ali que o trabalho começa.

O hack squat e a barra guiada entram na mesma lógica de estabilidade: Quanto mais estável o exercício, mais carga cabe nele e menos ele cobra das estabilizadoras. A exceção é o tronco: Entre a barra guiada e o peso livre, o estudo norueguês não achou diferença.

Leg press ou agachamento primeiro?

Mudar a ordem dos exercícios da musculação vai gerar um resultado diferente quando o volume de treino é equalizado? Não, não vai. É a resposta curta, e vale aqui.

A resposta prática é outra. A regra que eu ensino para abrir o treino é começar pelo grupo muscular que está mais carente, mais fraco. Entre esses dois o alvo principal é o mesmo, então nenhum deles tem prioridade automática. As melhores repetições costumam ser as primeiras, com carga mais alta, então comece por aquele em que você quer progredir na carga. Isso não é regra de resultado, é organização.

Dentro do bloco de pernas, tem uma ordem que eu defendo: A cadeira extensora entra entre os últimos exercícios, porque o reto femoral fica em segundo plano nos multiarticulares.

Os números ajudam, desde que você leia qual deles prova o quê. Sete semanas de agachamento paralelo fizeram crescer as quatro porções do quadríceps, sem diferença estatística entre elas (Kojic et al., 2022). Só que esse trabalho não tinha exercício de comparação: O estudo não diz se outro exercício renderia mais reto femoral. Quem compara de frente é outro: 63 mulheres destreinadas, 8 semanas, agachamento na barra guiada contra cadeira extensora. A cadeira extensora rendeu mais reto femoral nos três pontos medidos, e o agachamento rendeu mais vasto lateral na porção distal (Kassiano et al., 2026). Se o reto femoral é a sua porção atrasada, a extensão de joelho é o exercício que dá conta dele.

O leg press pega menos o joelho do que o agachamento?

É a crença que mais me preocupa: Leva gente com dor a trocar de aparelho achando que resolveu.

No mesmo trabalho de 1996, com 10 homens sem lesão fazendo 4 repetições com carga de 12RM, a compressão tibiofemoral máxima no agachamento foi de 6139 N, aos 91 graus de flexão de joelho, contra 4598 N na cadeira extensora, que é cadeia cinética aberta, aos 90 graus, com desvios grandes nos dois. O resumo desse trabalho não traz o valor do leg press, e por isso eu não cito número para ele. O que o resumo registra é diferença significativa nas forças tibiofemorais entre o agachamento e o leg press (Wilk et al., 1996).

O que eu ensino, olhando a compressão retropatelar, que é a que costuma doer, é o seguinte: Ela é maior no agachamento, especialmente perto dos 90 graus, e a do leg press fica bem próxima. O leg press não é passe livre para o joelho: Ele muda o vetor e alivia a coluna, não a articulação.

Duas variáveis mexem nesse quadro e as duas estão na sua mão. A primeira é a velocidade: Quanto mais rápido o movimento, maior a compressão retropatelar, e cadência controlada é o ajuste que não custa nada. A segunda é a amplitude no agachamento. Passar da paralela reduz a compressão retropatelar em vez de aumentar, e ainda melhora o trabalho na musculatura alvo. Parar nos 90 graus é o que deixa o joelho no pior ponto.

O joelho pode passar à frente dos pés, desde que a mobilidade de tornozelo permita. Com ela em dia, passar à frente reduz o estresse retropatelar em vez de aumentar.

Leg press: A posição dos pés muda alguma coisa?

Um grupo brasileiro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul testou isso com 14 mulheres, no leg press 45 graus e no leg press com os pés altos e baixos, a 40% e 80% de uma repetição máxima (Da Silva et al., 2008). Com os pés baixos e carga alta, mais reto femoral e mais vasto lateral. Com os pés altos, mais glúteo máximo.

Antes de mudar o treino por causa disso, três ressalvas. A primeira já apareceu: Ativação não é hipertrofia. A segunda é metodológica. Na imagem do protocolo dá para ver que o tênis da voluntária tem um calço, o que produz uma leve flexão plantar e não foi relatado no texto. Isso muda o que a panturrilha faz ali.

A terceira é minha leitura do conjunto. No leg press, que é multiarticular, não dá para inferir hipertrofia regional a partir dessa diferença de ativação, e a posição dos pés muda menos do que parece. O ajuste do pé muda mesmo o alvo na panturrilha.

A ordem de decisão é esta: Primeiro você acha a posição dos pés confortável e coerente com o seu corpo, depois pensa em ênfase. Não é subir o pé na plataforma para ativar glúteo. Uma leve rotação externa ou uma pequena abdução para encaixar o quadril vale mais que qualquer ajuste de altura, ainda mais quando existe encurtamento de adutores.

Resumo prático

  • Os dois são cadeia cinética fechada e os dois entregam quadríceps. A diferença está em volta.
  • No leg press o tronco trabalha bem menos: De 17 a 59% abaixo do agachamento livre. Em compensação, a carga sobe de 47 a 54%.
  • Nenhum dos dois constrói posterior de coxa ou panturrilha. Isso pede cadeira ou mesa flexora, levantamento terra e trabalho específico de panturrilha.
  • O leg press não poupa o joelho. A compressão retropatelar é alta nos dois, e no agachamento o pior ponto fica perto dos 90 graus de flexão.
  • Velocidade e amplitude mexem no estresse do joelho, e você controla as duas: Cadência controlada e, no agachamento, passar da paralela.
  • A ordem não muda o resultado com volume equalizado. Entre os dois, comece por aquele em que você quer progredir na carga. A cadeira extensora fica depois dos multiarticulares, nos quais o reto femoral trabalha menos.
  • Posição dos pés: Primeiro o encaixe confortável, depois a ênfase. Em ativação, pés baixos puxam mais quadríceps e pés altos mais glúteo, mas isso pesa menos do que parece.
  • No leg press, congele o fim da descida, em vez de quicar. É um dos principais ajustes do exercício.

A pergunta certa não é qual dos dois é melhor, é o que você precisa de cada um e o que o seu corpo permite hoje. Se der para fazer os dois, faça os dois: O agachamento pelo que cobra do corpo inteiro, o leg press pela carga que permite com o tronco apoiado. Se só der para um, escolha pelo que está limitando você, não pelo que a academia repete.

Antes de ir: Um guia gratuito sobre o jantar

A hora que mais estraga a dieta é 19, 20 horas. Escrevi um guia curto, O Plano das 19h, com as 3 decisões da manhã que resolvem o jantar e 4 jantares dos meus livros, um para cada nível. Deixe o seu e-mail e eu mando na hora. Sem custo.

Conteúdo educativo. Não substitui prescrição individualizada de um profissional de educação física. Quem tem dor no joelho, histórico de lesão de ligamento ou de menisco, ou limitação de mobilidade deve ser avaliado antes de incluir ou intensificar agachamento e leg press.

Leia também

A análise de exercício, em livro

Comparar leg press e agachamento pela mecânica de cada um é biomecânica aplicada.

Transparência: Sou coautor do livro e ganho com a venda.

Biomecânica da Musculação e Dieta para Mulheres

Capa do livro Biomecânica da Musculação e Dieta para Mulheres, de Alexandre Maia e Santiago Paes

O livro, que escrevi com o Dr. Alexandre Maia, tem 288 páginas: Mais de 100 exercícios de musculação analisados, com as adaptações para o corpo feminino, o efeito do ciclo menstrual no treino e na dieta e o ajuste da alimentação à capacidade de treino da mulher. É livro técnico, feito para personal trainers, nutricionistas e estudantes de educação física e nutrição.

Livro físico, R$137.

Referências

  • Saeterbakken AH, et al. Core Muscle Activation in Three Lower Extremity Exercises With Different Stability Requirements. Journal of Strength and Conditioning Research, 2022. Ver no PubMed
  • Wilk KE, et al. A comparison of tibiofemoral joint forces and electromyographic activity during open and closed kinetic chain exercises. The American Journal of Sports Medicine, 1996. Ver no PubMed
  • Da Silva EM, et al. Analysis of muscle activation during different leg press exercises at submaximum effort levels. Journal of Strength and Conditioning Research, 2008. Ver no PubMed
  • Kojic F, et al. Does Back Squat Exercise Lead to Regional Hypertrophy among Quadriceps Femoris Muscles? International Journal of Environmental Research and Public Health, 2022. Ver no PubMed
  • Kassiano W, et al. Comparison of Muscle Hypertrophy and Strength Adaptations Induced by Back Squat and Leg Extension Resistance Exercises. Journal of Strength and Conditioning Research, 2026. Ver no PubMed

Compartilhe nas mídias: