Déficit calórico: Como calcular e quantas calorias cortar

Prato branco com peito de frango grelhado, arroz, feijão e salada, ao lado de um caderno fechado com lápis e um copo de água sobre ardósia escura
Neste artigo

Déficit calórico é a condição para emagrecer. Sem ele, nenhuma dieta, nenhum horário de refeição e nenhum suplemento faz a gordura sair. A dúvida que mais aparece não é se ele funciona, e sim como calcular: Quanto eu gasto, quanto devo comer e quantas calorias cortar.

A conta existe e vale a pena entender. Mas ela é uma estimativa, e saber onde ela erra é o que evita a frustração de fazer tudo certo no papel e não ver a balança se mexer.

O que é déficit calórico?

Quando você gasta mais calorias do que consome, está em déficit calórico. Quando consome mais do que gasta, está em superávit. O corpo cobre a diferença com a energia que tem guardada, principalmente no tecido adiposo.

Muita gente diz que emagrecer não é só déficit, e que os hormônios mandam no processo. Uso uma comparação: Os hormônios são como o carro. Podem deixar a viagem mais rápida, mas a distância entre as cidades não muda: Quem define se você chega é o déficit.

Como calcular o déficit calórico?

São três passos: Estimar o gasto de repouso, multiplicar pelo nível de atividade para chegar ao gasto do dia e, só então, tirar o déficit.

1. Gasto de repouso. É a energia que o corpo gasta para se manter vivo, parado. Para quem está com sobrepeso, a fórmula que uso é a de Mifflin-St Jeor, criada a partir de medidas de 498 adultos (Mifflin et al., 1990):

  • Homens: 10 × peso (kg), mais 6,25 × altura (cm), menos 5 × idade (anos), mais 5
  • Mulheres: 10 × peso (kg), mais 6,25 × altura (cm), menos 5 × idade (anos), menos 161

Numa revisão que comparou as fórmulas mais usadas, a de Mifflin-St Jeor foi a que mais vezes acertou o gasto de repouso com margem de 10%, tanto em pessoas com obesidade quanto sem. Mesmo assim, os autores alertam que o erro numa pessoa específica pode ser relevante (Frankenfield et al., 2005). Por isso costumo dizer que em nutrição não existe precisão. O que a gente busca é chegar o mais perto possível do que a pessoa precisa.

2. Gasto do dia. Multiplique o gasto de repouso pelo fator atividade. Quem é sedentário fica, muito provavelmente, entre 1,1 e 1,3. Quem faz musculação 2 ou 3 vezes por semana, sem outra atividade, entra como pouco ativo, algo em torno de 1,4, porque a musculação gasta menos do que parece. Quem treina há mais de 5 anos, com volume alto, já vai para cerca de 1,6.

3. Déficit. Tire do gasto do dia o déficit que você vai fazer. Quanto tirar é o assunto da próxima pergunta.

Um exemplo: Uma mulher de 35 anos, 70 kg e 1,65 m, que faz musculação 3 vezes por semana. O gasto de repouso dela é de cerca de 1.395 kcal. Multiplicando por 1,4, o gasto do dia chega a cerca de 1.953 kcal. Com um déficit de 20%, a meta fica em cerca de 1.560 kcal por dia.

Repare como o fator atividade pesa: No exemplo, cada 0,1 a mais ou a menos muda o gasto do dia em cerca de 140 kcal. É fácil superestimar o quanto você se mexe, e esse erro passa para a conta inteira.

Faça a conta com os seus números: A calculadora de TMB e gasto do dia segue estes três passos e ainda monta um exemplo de dia no prato, com receitas por nível.

Esquema em três passos intitulado Como calcular o déficit calórico: Gasto de repouso pela fórmula de Mifflin-St Jeor, gasto do dia com o fator atividade e meta do dia com o déficit, com o exemplo de uma mulher de 35 anos e 70 kg
Figura 1. Os três passos para calcular o déficit calórico, com um exemplo (Mifflin et al., 1990). Fonte: PAES, 2026.

Quantas calorias cortar para emagrecer?

Nas aulas, trabalho com duas medidas. Em valor absoluto, os estudos trazem de 500 a 1.000 kcal de déficit por dia como referência. Em percentual, 20% do gasto do dia é um déficit tranquilo.

Quando o déficit vai para 700 ou 1.000 kcal, ele já fica um pouco mais agressivo, e isso pode cobrar em fome e em rendimento no treino. Acima de 1.000 kcal por dia, considero agressivo. Portanto, 500 kcal é um bom ponto de partida.

Para quem gasta pouco, 500 kcal já pesam mais. No exemplo acima, seriam cerca de 25% do gasto do dia dela.

Para quem já treina há tempo e quer reduzir gordura sem perder músculo, o raciocínio muda: O déficit fica menor, entre 200 e 300 kcal. O objetivo é poupar o máximo possível de massa muscular.

Déficit calórico muito grande faz mal?

Quanto maior o déficit, maior a velocidade de perda de peso. O problema é o que vai junto. Em déficit, o corpo tira energia do tecido adiposo, mas também tira um pouco de glicogênio e um pouco de aminoácido do músculo. Toda dieta de emagrecimento tende a reduzir a massa muscular, e quanto maior o déficit, maior essa tendência.

Uma revisão com 52 estudos em adultos de meia-idade e idosos com excesso de peso mostrou quanto da perda pode vir de massa livre de gordura, que inclui o músculo, quando só se faz dieta. Em 81% dos grupos que só fizeram dieta, 15% ou mais do peso perdido foi de massa livre de gordura. Nos grupos que fizeram dieta e exercício, em geral aeróbio, isso aconteceu em 39% (Weinheimer et al., 2010).

Vejo isso todo fim de ano: A pessoa chega em novembro querendo perder 10 kg em 2 meses para as festas. Até perde bastante, mas sacrifica mais massa muscular. E o custo não fica só no músculo. Apertar demais a dieta também pode deixar a pessoa prostrada, letárgica, com menos rendimento no trabalho e com as relações em casa mais tensas.

Para proteger o músculo dentro do déficit, dois pontos contam: Proteína um pouco mais alta, tanto mais alta quanto maior o déficit, e musculação com volume suficiente, na ordem de 12 a 16 séries por grupo muscular por semana. Falo sobre volume de treino no post sobre quantas séries por semana para hipertrofia.

Calculadora online e relógio acertam o gasto calórico?

Dão uma estimativa, e só. No caso da calculadora online, o resultado depende muito do fator atividade que você escolhe.

O relógio erra mais. Num estudo da Universidade Stanford com sete aparelhos de pulso, entre relógios e pulseiras, a frequência cardíaca foi medida razoavelmente bem, mas nenhum dos aparelhos estimou o gasto de energia com erro abaixo de 20% (Shcherbina et al., 2017). Na prática, é comum ver o relógio marcar 800 kcal numa sessão de musculação que gasta mais ou menos 200 a 250 kcal. Se você usar esse número para comer mais, o déficit pode sumir.

A minha orientação é usar o relógio para contar passos, e não calorias. O número de passos do dia é uma métrica muito mais útil para saber se você está ativo.

O outro lado da conta também engana. Quem anota o que come tende a registrar menos do que realmente consome. Somando os dois erros, é fácil acreditar num déficit que não existe.

Por que o peso não cai do jeito que a conta prevê?

A regra mais conhecida diz que cada quilo de gordura corresponde a cerca de 7.700 kcal de déficit acumulado. Ela funciona no início, mas depois a conta não fecha. Uma análise que comparou essa regra com sete experimentos de perda de peso, feitos com a ingestão controlada ou medida de forma objetiva, mostrou que ela superestima muito a perda real (Thomas et al., 2013).

A conta dos 7.700 kcal é linear, e o corpo não é. Dois motivos ajudam a explicar isso. O primeiro é a adaptação metabólica: Para cada quilo perdido, o gasto de repouso cai algo em torno de 20 a 30 kcal por dia e o apetite sobe cerca de 100 kcal por dia. O segundo é a água: Na pior das hipóteses, glicogênio, sal e a fase do ciclo menstrual podem somar até 3 kg de retenção na balança.

Logo, não tome decisão com base em um dia de balança. Oriento a pessoa a se pesar em jejum, depois de ir ao banheiro, de preferência no mesmo dia da semana (eu uso muito a segunda-feira), e a levar em conta o ciclo menstrual e o fim de semana. A exceção é quem tem distorção de imagem ou já sofre com a balança: Para essa pessoa, muitas vezes o melhor é não se pesar, e o acompanhamento profissional vem antes do número.

Quando a comida já está muito baixa, o déficit extra deve vir de mais passos e mais exercício, e não de cortar ainda mais. Se a balança parou por semanas mesmo com a dieta certa, o próximo passo está explicado no post sobre platô no emagrecimento.

Dá para fazer déficit calórico sem contar calorias?

Dá. Se a pessoa tem obesidade, a minha primeira linha não é a matemática das calorias, é a psicoeducação alimentar: Entender a relação dela com a comida e por que certas escolhas são tão difíceis. Para quem já está vulnerável nessa relação, contar calorias pode piorar o estado emocional e aumentar a vontade de comer para relaxar.

Na prática, o déficit pode nascer do prato montado:

  • Prato feito, e não self-service, e comer devagar, principalmente no começo.
  • Porções definidas nos primeiros meses, até o olho aprender o tamanho certo.
  • Arroz e feijão na proporção de 2 para 1, algo como 100 g de arroz para 50 g de feijão, metade do prato com vegetais e uma proteína magra, como frango ou peixe.
  • Mais proteína quando a fome aperta. Dobrar a porção de carne aumenta a saciedade.

Um prato assim, com arroz, feijão, um filé de frango de 100 g e vegetais, fica por volta de 500 a 600 kcal, a depender de quanto óleo vai no preparo. Com as refeições do dia montadas desse jeito, o déficit pode aparecer sem planilha, e depois se ajusta.

Resumo prático

  • Déficit calórico é gastar mais do que se consome. É ele que define se você emagrece.
  • Para calcular: Gasto de repouso (Mifflin-St Jeor) vezes o fator atividade, menos o déficit.
  • Ponto de partida: Cerca de 500 kcal ou 20% do gasto do dia. Acima de 1.000 kcal por dia é agressivo.
  • Déficit grande acelera a balança, mas tende a custar mais músculo, mais fome e pior rendimento. Proteína e musculação protegem o músculo.
  • Fórmula, calculadora e relógio são estimativas. Use o relógio para contar passos, e não calorias.
  • A regra dos 7.700 kcal por quilo funciona no começo, mas superestima a perda com o passar dos meses. Se a balança parar, confira a adesão. Se a comida já estiver baixa, aumente o movimento em vez de cortar mais.

A conta serve para dar a direção. Quem sustenta o déficit por meses é a rotina: Prato montado, proteína, passos e treino.

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Referências

  • Mifflin MD, et al. A new predictive equation for resting energy expenditure in healthy individuals. American Journal of Clinical Nutrition, 1990. Ver no PubMed
  • Frankenfield D, et al. Comparison of predictive equations for resting metabolic rate in healthy nonobese and obese adults: a systematic review. Journal of the American Dietetic Association, 2005. Ver no PubMed
  • Weinheimer EM, et al. A systematic review of the separate and combined effects of energy restriction and exercise on fat-free mass in middle-aged and older adults: implications for sarcopenic obesity. Nutrition Reviews, 2010. Ver no PubMed
  • Shcherbina A, et al. Accuracy in Wrist-Worn, Sensor-Based Measurements of Heart Rate and Energy Expenditure in a Diverse Cohort. Journal of Personalized Medicine, 2017. Ver no PubMed
  • Thomas DM, et al. Can a weight loss of one pound a week be achieved with a 3500-kcal deficit? Commentary on a commonly accepted rule. International Journal of Obesity, 2013. Ver no PubMed

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