Neste artigo
É a idade. Essa é a explicação mais confortável que existe para três queixas muito comuns. A testosterona do homem caiu, o metabolismo ficou lento e a mulher depois da menopausa não ganha mais músculo. É confortável porque ninguém consegue discutir com o calendário.
Esta é uma matéria especial, com três estudos que eu escolhi para responder a essa pergunta. Os três chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes. A idade pesa bem menos do que se fala, e boa parte do que se põe na conta dela anda junto com coisas em que você consegue mexer. O primeiro saiu agora, em 2026, e é o que vai incomodar mais gente.
A testosterona cai com a idade?
Entre os 20 e os 59 anos, a diferença de testosterona entre as faixas de idade é modesta. Além disso, a idade sozinha explica muito pouco da diferença de testosterona entre um homem e outro. Um estudo publicado no Journal of the Endocrine Society (Potter e Friedl, 2026) analisou 4.984 homens americanos de 20 a 59 anos, numa amostra que representa o país, tirada de uma grande pesquisa nacional de saúde feita de 2011 a 2016. A testosterona total foi dosada por espectrometria de massa, que é o método de referência. A gordura foi medida por densitometria de corpo inteiro, um exame de imagem que separa a gordura total da gordura visceral, aquela que fica dentro do abdome, em volta dos órgãos.
A pergunta dos autores foi simples. Quanto da diferença de testosterona entre um homem e outro é explicado pela idade, e quanto é explicado pela gordura? A resposta veio assim.
- A idade sozinha explicou 2,5% da variação da testosterona.
- Idade e gordura corporal total, juntas, explicaram perto de 18%.
- Idade e gordura visceral, também perto de 18%.
- Idade e circunferência da cintura, medida com fita, perto de 20%.
Ou seja, pôr a gordura na conta levou a explicação de 2,5% para algo entre 18% e 20%, umas sete vezes mais do que a idade sozinha.
Tem um detalhe que pesa muito no trabalho. Quando a gordura visceral entrou na conta junto com a idade, o efeito da idade deixou de ser estatisticamente significativo. Para os autores, portanto, boa parte daquilo que se chama de queda da testosterona com a idade reflete o acúmulo de gordura que acompanha a idade.
Se você já ouviu que testosterona baixa é coisa da idade, olhe os números por década. Eles mostram que não é uma ladeira reta. A média de testosterona foi de 468,6 ng/dL dos 20 aos 29 anos, ficou em 393,1 ng/dL dos 40 aos 49 e em 410,2 ng/dL dos 50 aos 59. No mesmo período, a área de gordura visceral praticamente dobrou, e a cintura média passou de 93,8 para 104,6 centímetros. Como cada faixa reúne homens diferentes, esses números não contam a história de um mesmo homem envelhecendo. O que eles mostram é que a idade, sozinha, não desenha uma queda contínua.
Agora veja o que acontece quando você compara homens da mesma idade. Em todas as faixas, quem tinha testosterona abaixo de 300 ng/dL tinha mais gordura total e mais gordura visceral do que quem estava acima. Dos 30 aos 39 anos, por exemplo, o grupo com testosterona baixa tinha 30,3% de gordura corporal, contra 26,4% do outro grupo, e 130,5 cm² de gordura visceral, contra 94,6 cm². Dentro da mesma faixa de idade, foi a gordura que separou os dois grupos.
Na curva ajustada pela idade, a testosterona prevista vai de uns 900 ng/dL num homem com 5% de gordura para uns 250 ng/dL num homem com 45%.
Quando eu vi esse estudo, pensei na barriguinha de chope. O homem vai envelhecendo e vai ganhando aquela barriga, e depois a culpa da testosterona baixa vai para a idade. O estudo mostra que a conta não fecha assim.
Como a gordura pode baixar a testosterona?
Os autores listam os mecanismos. O tecido adiposo converte testosterona em estradiol, o que se chama de aromatização. O excesso de gordura também reduz a atividade do eixo que comanda a produção de testosterona. Já a resistência à insulina reduz, no fígado, a produção da proteína que transporta a testosterona no sangue. E a gordura visceral ainda soma um sinal inflamatório.
A via é de mão dupla. A testosterona baixa também favorece o acúmulo de gordura. É um ciclo em que mais gordura significa menos testosterona, e menos testosterona facilita acumular mais gordura.
Se você tem excesso de gordura e pensa em começar testosterona por conta própria, sem resolver o resto, a gordura vai aromatizar parte desse hormônio, e o efeito tende a piorar. Isso não é recado para quem já usa reposição com prescrição. Mexer nisso é conversa com quem prescreveu.
A cintura entrega
Uma parte muito prática do estudo é esta. A fita métrica funcionou tão bem quanto o exame de imagem para explicar a testosterona. Nos dados dessa pesquisa, uma gordura visceral de uns 100, 200 e 300 cm² corresponde, em média, a uma cintura de uns 95, 105 e 115 centímetros em homens adultos. Os próprios autores escrevem que um homem de meia-idade com mais de 110 a 115 centímetros de cintura tem muito mais chance de estar com a testosterona baixa por excesso de gordura visceral do que pela idade.
Isso não é diagnóstico, e a cintura sozinha não decide nada. No entanto, é uma medida que você consegue fazer em casa, com uma fita, e que diz mais do que o seu aniversário.
O que isso muda na conversa sobre reposição
Aqui é preciso cuidado, porque o próprio estudo é cuidadoso. Ele é transversal, ou seja, olhou cada homem uma vez só. Dessa forma, mostra associação e não prova causa. A testosterona foi dosada uma vez, sem avaliação de sintomas e sem os hormônios da hipófise que diferenciam um problema do testículo de uma queda funcional. Testosterona baixa, no estudo, é um número de laboratório, e não um diagnóstico de hipogonadismo. E o estudo vai só até os 59 anos. Os autores avisam que essas conclusões não devem ser estendidas direto para homens mais velhos, em quem o próprio testículo e a fragilidade podem pesar mais.
Mesmo com esses limites, a conclusão deles é clara. As diretrizes pedem que a testosterona baixa seja confirmada com novas dosagens pela manhã, que haja sintomas compatíveis e que as causas reversíveis sejam avaliadas antes de começar a reposição. Além disso, há o homem com obesidade em quem a testosterona baixa vem do excesso de gordura, e não de um problema do testículo ou da hipófise. Nele, perder peso, fazer atividade física e tratar a doença metabólica pode melhorar a testosterona que o próprio corpo produz, e em geral deve vir antes do hormônio.
Colocar testosterona em quem está acima do peso, dorme mal e não mexeu na alimentação nem no comportamento é tampar o sol com a peneira.
Isso não quer dizer que reposição nunca tenha indicação, nem que você deva mexer por conta própria no que o médico prescreveu. Quer dizer que, antes de culpar a idade, vale você olhar para a cintura.
Existe alimento que aumenta a testosterona?
Não. Se você procura um alimento que aumente a testosterona, ele não existe. Em relação ao hormônio, o que ajuda é treinar, dormir bem, controlar o peso e reduzir o percentual de gordura. No estudo, porém, a massa magra em si pesou pouco na testosterona do sangue. Os homens com testosterona baixa tinham até mais massa magra, por serem mais pesados. O que separou os grupos foi a gordura.
A dieta entra pelo caminho de reduzir a gordura, e não por um ingrediente mágico. Cabe também um aviso que está no mesmo artigo, para quem pega pesado demais. Em homens magros submetidos a restrição calórica prolongada sob estresse físico intenso, a testosterona chegou a níveis muito baixos e voltou rápido quando eles voltaram a comer. Até mesmo dormir pouco reduz a testosterona. A resposta, portanto, é perder gordura com um déficit que você consiga sustentar, treinar e dormir, sem passar fome.
E o metabolismo, também não cai?
Dos 20 aos 60 anos, não. É o segundo estudo da matéria, e um dos melhores já publicados sobre o tema. Na Science, Pontzer e colaboradores (2021) reuniram 6.421 pessoas de 29 países, de 8 dias a 95 anos, com o gasto de energia medido por água duplamente marcada. O gasto total, o gasto basal e a massa livre de gordura ficaram estáveis dos 20 aos 60 anos. No gasto ajustado pela composição corporal, a virada para baixo apareceu por volta dos 63 anos.
Tem uma ressalva no texto completo que vale trazer. No gasto basal ajustado, o ponto de virada estimado ficou em 46,5 anos. Os autores, no entanto, avisam que tinham poucas medidas de gasto basal entre 45 e 65 anos, e que essa estimativa é pouco precisa. Esses números estão destrinchados no texto sobre emagrecer depois dos 40.
O ponto que liga com a testosterona é o mesmo. Nessa faixa, não é o calendário que derruba o gasto. O que muda com os anos costuma ser o estilo de vida e a rotina do dia a dia, e quem leva a culpa é o calendário.
E a mulher na menopausa, ainda ganha músculo?
Ganha. O terceiro estudo é uma meta-análise publicada em 2026 no Journal of Science and Medicine in Sport (Isenmann e colaboradores), com 126 estudos e 4.019 mulheres saudáveis, a maioria, 66,2%, na pós-menopausa. Com o treino resistido, a força aumentou muito, e por igual, em mulheres antes e depois da menopausa. A massa funcional, como o estudo chama, subiu e a massa gorda desceu nos dois grupos, também sem diferença entre eles. E a idade não mudou os resultados.
Se você passou da menopausa, a resposta do músculo ao treino continua lá, porque ela depende do estímulo do movimento, e não do calendário.
Só não vou vender o que o estudo não mostra. O ganho de força foi grande, embora o efeito na massa e na gordura tenha sido pequeno. O treino é o que mantém a mulher forte, e a dieta e a rotina seguem fazendo a parte delas. Se você quer entender o resto da menopausa, está em O metabolismo da mulher cai na menopausa? O que a ciência mostra.
O que os três estudos têm em comum
Os três tiram da idade uma culpa que ela não carrega sozinha. Entre os 20 e os 59 anos, a testosterona do homem acompanhou a cintura muito mais do que o calendário. O gasto de energia fica estável por quatro décadas da vida adulta. E a mulher depois da menopausa responde ao treino de força como as mulheres antes dela.
Isso não significa que envelhecer não muda nada. Significa que, entre os 20 e os 60, boa parte do que se põe na conta da idade anda junto com coisas em que você consegue mexer. E, pelo que eu vejo, as que mais contam são o percentual de gordura, o treino, o sono e o comportamento. É uma notícia boa, porque está na sua mão.
Resumo prático
- Num estudo com 4.984 homens de 20 a 59 anos, a idade sozinha explicou 2,5% da variação da testosterona. Somando a gordura total, a visceral ou a cintura, a explicação subiu para 18% a 20%.
- Com a gordura visceral na conta, o efeito da idade deixou de ser estatisticamente significativo.
- Em todas as faixas de idade, homens com testosterona abaixo de 300 ng/dL tinham mais gordura total e visceral.
- Num homem de meia-idade com testosterona baixa e cintura acima de 110 a 115 cm, os autores apontam a gordura visceral como explicação mais provável do que a idade. Não é diagnóstico.
- O estudo é transversal e de dosagem única. Mostra associação, não causa, e não vale direto para quem tem mais de 59 anos.
- Não existe alimento que aumente a testosterona. Reduzir gordura, treinar e dormir ajudam mais, sem passar fome.
- O gasto de energia fica estável dos 20 aos 60 anos, e a mulher depois da menopausa ganha força com o treino como as mulheres antes dela.
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Conteúdo educativo. Não substitui a avaliação médica, a avaliação nutricional individualizada nem a prescrição de exercício por profissional de educação física. Os números citados aqui são resultados de grupos em estudos e conteúdos de aula usados na formação de profissionais, e não a conduta de uma pessoa específica. Um valor de testosterona isolado não fecha diagnóstico. A decisão de iniciar reposição hormonal é médica, e a de ajustar ou interromper qualquer hormônio ou medicamento é de quem prescreveu. Quem tem obesidade, diabetes, doença cardiovascular, apneia do sono, usa medicamento de uso contínuo ou hormônio precisa de orientação individual. Quem define o seu caso é quem acompanha você.
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Referências
- Potter AW, Friedl KE. Adiposity, not chronological aging, is the dominant determinant of circulating testosterone in US adult men. Journal of the Endocrine Society, 2026. Ver no PubMed
- Pontzer H, Yamada Y, Sagayama H, et al. Daily energy expenditure through the human life course. Science, 2021. Ver no PubMed
- Isenmann E, Geisler S, Havers T, et al. It’s never too late: The impact of resistance training on strength and body composition in females across the lifespan: A systematic review and meta-analysis. Journal of Science and Medicine in Sport, 2026. Ver no PubMed