Neste artigo
Comer intuitivo é uma abordagem alimentar criada pelas nutricionistas Evelyn Tribole e Elyse Resch que integra sinais do corpo, emoções e pensamento racional. A proposta inclui reconhecer fome e saciedade, rever regras rígidas e considerar prazer e saúde nas escolhas. Portanto, defini-la como comer qualquer coisa, a qualquer momento, deixa de fora parte do método. [1,2]
O que a abordagem propõe
As criadoras apresentam dez princípios. Eles envolvem abandonar a mentalidade de dieta, reconhecer a fome, fazer as pazes com a comida, questionar a vigilância alimentar, perceber a saciedade, valorizar a satisfação, lidar com emoções com gentileza, respeitar o corpo, movimentar-se e cuidar da saúde por meio de uma nutrição gentil. [1,2]
Esses princípios descrevem uma proposta de autocuidado. O objetivo declarado pelas autoras não é usar a intuição como técnica para perder peso. Além disso, a presença de prazer e permissão para comer não elimina, na definição original, a consideração pela qualidade da alimentação. [1,2]
Pense em alguém que gosta de bolo no café da tarde. Na apresentação do método, permitir esse alimento faz parte de uma relação com a comida que também considera satisfação, sinais corporais e saúde. Resumir tudo a comer bolo sempre que surgir vontade não representa o conjunto da proposta. É um exemplo para compreender a definição, não um exercício terapêutico. [2]
Acolhimento e controle flexível são a mesma coisa?
Minha ressalva é confundir o nome de uma abordagem com atitudes que deveriam fazer parte do atendimento. Escutar dificuldades, acolher sem julgamento e levar a história da pessoa em consideração não são exclusividades do comer intuitivo. Defendo esse acolhimento, mas isso não significa endossar o método. [3]
Também distingo controle flexível de simplesmente seguir toda vontade. Nas aulas, discuto escolhas alimentares organizadas com margem para preferências e situações da vida. Essa flexibilidade precisa ser compreendida no contexto da pessoa, sem transformar acolhimento, intuição e planejamento em sinônimos. [3,4]
O que dá para concluir sobre os resultados?
Existe pesquisa sobre comer intuitivo. Hazzard e colaboradores acompanharam 1.491 participantes da adolescência à vida adulta, durante oito anos. Escores maiores de comer intuitivo estiveram associados a menor chance de insatisfação corporal elevada e de comportamentos alimentares desordenados no acompanhamento. [5]
Contudo, era um estudo observacional. A medida de comer intuitivo usou apenas três perguntas e não avaliou a aplicação completa dos dez princípios. Os próprios autores reconhecem que as associações não permitem inferir causalidade. Portanto, esse resultado não demonstra que adotar o método provoque aqueles benefícios, nem constitui prova de emagrecimento ou de tratamento da ansiedade. Esses efeitos não podem ser prometidos a partir desse estudo. [5]
Como entender a proposta sem confundir os objetivos
Comer intuitivo tem uma definição própria, que merece ser apresentada corretamente. Acolher alguém e organizar escolhas com flexibilidade também merecem atenção, sem que isso obrigue a adotar esse nome. Para discutir a continuidade de um plano alimentar, desenvolvo esse outro assunto em Por que as dietas falham?
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Leia também
- Por que as dietas falham? Os 4 Ps que definem se um plano vai durar
- Não sei cozinhar: Como começar com refeições simples
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Referências
- Tribole E. Definition of Intuitive Eating. Intuitive Eating, 2019. Fonte original da definição.
- Tribole E, Resch E. 10 Principles of Intuitive Eating. Intuitive Eating. Apresentação dos princípios pelas criadoras.
- Paes S. Comer intuitivo ou controle flexível da dieta. NutriTV, Dieta Flexível, aula 03. Transcrição original consultada.
- Paes S. Dieta, ansiedade, comer intuitivo e introdução ao mindfulness. NutriTV, Nutrição Comportamental, aula 22. Transcrição original consultada.
- Hazzard VM, Telke SE, Simone M, Anderson LM, Larson NI, Neumark-Sztainer D. Intuitive eating longitudinally predicts better psychological health and lower use of disordered eating behaviors. Eat Weight Disord. 2021;26(1):287-294. DOI 10.1007/s40519-020-00852-4. PMID 32006391.