Ozempic perde massa muscular? Sim, e como proteger o músculo

Ozempic faz perder massa muscular? Como proteger o músculo no emagrecimento

Prato escuro com frango grelhado, feijão preto e brócolis, com um halter desfocado ao fundo

Os análogos de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), como a semaglutida (Ozempic®, Wegovy®) e a liraglutida, reduzem o apetite e retardam o esvaziamento gástrico, o que leva a uma queda expressiva da ingestão calórica e, por consequência, do peso corporal. A pergunta que mais recebo sobre eles é se essa perda vem também da massa muscular. A resposta curta é: Sim, parte dela vem, como em qualquer emagrecimento rápido. A resposta completa é mais útil, porque a perda de músculo não é inevitável na proporção em que costuma acontecer.

Uma distinção que costuma faltar nessa conversa: A semaglutida é registrada como Ozempic® para diabetes tipo 2 e como Wegovy® para o tratamento da obesidade. Usar o Ozempic® apenas para perder peso é decisão médica fora da indicação em bula.

Atenção: Análogos de GLP-1 são medicamentos de prescrição e o uso exige acompanhamento médico.

Ozempic faz perder massa muscular?

Toda dieta de emagrecimento leva a alguma perda de massa muscular; isso vale para a restrição calórica convencional, para a cirurgia bariátrica e para os análogos de GLP-1. O que muda com esses fármacos é a velocidade e a magnitude: Como a redução da ingestão é grande e, muitas vezes, pouco planejada, a proporção de massa magra perdida tende a ser maior quando não há dieta estruturada nem treinamento resistido.

Em emagrecimentos rápidos sem treino de força estruturado e sem meta de proteína, uma fração relevante do peso perdido pode ser massa magra; no subestudo de composição corporal do STEP 1 (Wilding et al., 2021), algo em torno de 40% do peso perdido com semaglutida foi massa magra. Por outro lado, também se observa que essa perda não é linear: Ela é mais intensa no início e tende a se estabilizar, como se o organismo encontrasse um ponto de compensação a partir do qual protege o tecido muscular remanescente.

Com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, o padrão se repete. No subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1 (Look et al., 2025), 160 participantes fizeram densitometria no início e de novo depois de 72 semanas: Cerca de 75% do peso perdido veio da gordura e cerca de 25% veio da massa magra. O que mais me chama atenção nesse estudo é que essa proporção foi praticamente a mesma no grupo que recebeu placebo. Ou seja, a questão não está no fármaco em si: Está em emagrecer sem treino de força e sem proteína suficiente, seja qual for o método.

Por que a massa muscular importa tanto nesse processo?

Porque ela é o tecido que sustenta a manutenção do peso perdido. O músculo é metabolicamente ativo e responde à insulina: É um dos principais destinos da glicose depois de uma refeição. Quem perde muita massa magra termina o processo com um gasto energético menor e com uma fome maior do que a esperada para o novo peso, que é um dos mecanismos por trás do platô e do reganho.

O caso clássico de adaptação metabólica é o do reality show Biggest Loser: Participantes que emagreceram dezenas de quilos em poucos meses apresentaram anos depois uma redução persistente do metabolismo de repouso e recuperaram a maior parte do peso, mesmo com preservação relativa da massa magra durante a competição (Johannsen et al., 2012; Fothergill et al., 2016). Ou seja, preservar músculo não anula a adaptação: O organismo reage ao emagrecimento rápido de qualquer jeito. O que a massa muscular faz, e é por isso que insisto nela, é manter força e função, evitar parte da perda de gasto que vem junto com a massa magra, e ajudar no controle do apetite, o que torna a manutenção menos difícil.

Como não perder massa muscular tomando Ozempic?

Com medidas que não dependem do fármaco. As duas principais são proteína suficiente e treinamento resistido.

O que protege o músculo durante o uso de GLP-1: Proteína, musculação, ritmo, sono e acompanhamento
Figura 1. As cinco medidas que não dependem do fármaco e reduzem a perda de massa muscular durante o uso de análogos de GLP-1. Fonte: PAES, 2026.

Considerações práticas:

  • Proteína: Algo em torno de 1,6 a 2,2 g por quilo de peso corporal por dia (Morton et al., 2018), distribuída em três a cinco refeições. Como o apetite está reduzido, a proteína precisa ser a prioridade da refeição; se ficar por último, a pessoa se satisfaz antes de atingir a cota. Escolher a receita já sabendo quantos gramas de proteína tem a porção resolve boa parte disso; é o que o RS7 mostra em cada receita.
  • Musculação: Ao menos duas sessões semanais, com séries levadas próximo da falha, cobrindo os grandes grupos musculares. É o estímulo mecânico que sinaliza ao organismo que aquele tecido precisa ser mantido mesmo em déficit.
  • Ritmo: Perdas muito rápidas custam mais músculo. Se a queda de peso passar de 1% do peso corporal por semana de forma sustentada, vale conversar com o médico que prescreveu e com o nutricionista sobre a ingestão.
  • Sono: A recuperação do treino e a síntese proteica dependem dele. Noites curtas pioram o balanço entre síntese e degradação muscular.
  • Acompanhamento: Composição corporal e força, não apenas o peso na balança. É o que mostra se o que está saindo é gordura ou músculo.

O Ozempic interfere na musculação?

Interfere de forma indireta. A náusea, comum nas primeiras semanas e nos ajustes de dose, reduz a disposição para treinar; a ingestão baixa de carboidrato reduz o glicogênio muscular e pode reduzir o rendimento, sobretudo em treinos de maior volume; e a perda de peso rápida diminui as cargas que a pessoa consegue mover. Nenhum desses efeitos impede o treino, mas todos exigem ajuste: Volumes menores no início, progressão mais lenta e uma refeição, ainda que pequena, com carboidrato algumas horas antes da sessão.

Quem parte do zero responde bem ao estímulo, mesmo em déficit. Logo, o treino de força precisa entrar junto com a primeira dose. Não sou contra a medicação; sou contra a banalização do processo de emagrecimento, a ideia de que só se emagrece com ela.

Como fica o corpo de quem usa Ozempic?

Depende inteiramente do que se perde. Quem perde gordura e preserva músculo termina com um corpo mais firme e funcional; quem perde os dois em proporções parecidas termina mais leve, porém com menos força, menor tônus e, com frequência, com a aparência de flacidez que muita gente atribui ao medicamento, quando, em boa parte, é consequência da perda de massa magra sem estímulo.

É importante destacar que a balança não distingue os dois cenários. Duas pessoas que perderam 15 kg podem ter composições corporais completamente diferentes. Por isso, o acompanhamento deveria incluir alguma medida de composição corporal (dobras cutâneas, perímetros, força nos exercícios) e não apenas o peso.

O que acontece quando para de tomar Ozempic?

O apetite retorna, e com ele a tendência ao reganho de peso, especialmente em quem não construiu hábitos alimentares e de treino durante o uso. Os estudos de acompanhamento após a interrupção mostram recuperação de cerca de dois terços do peso perdido no primeiro ano (Wilding et al., 2022). Quem preservou massa muscular e manteve a rotina de exercício parte de uma posição melhor.

Sendo assim, o período de uso do fármaco deveria ser tratado como janela de construção de hábitos, e não como solução em si. Como sempre digo, emagrecer é fácil; o difícil é manter o peso perdido, e isso vale ainda mais quando o emagrecimento veio com ajuda farmacológica.

Resumo prático

  • Todo emagrecimento perde músculo; com análogos de GLP-1, a perda tende a ser maior se não houver proteína e treino de força.
  • Proteína em torno de 1,6 a 2,2 g/kg e musculação ao menos duas vezes por semana são as duas medidas com maior efeito sobre a massa magra; ritmo, sono e acompanhamento completam.
  • Acompanhe composição corporal e força, não apenas a balança.
  • Use o período do fármaco para construir os hábitos que vão sustentar o peso depois dele.

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Referências

  • Johannsen DL, et al. Metabolic slowing with massive weight loss despite preservation of fat-free mass. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2012. Ver no PubMed
  • Fothergill E, et al. Persistent metabolic adaptation 6 years after The Biggest Loser competition. Obesity, 2016. Ver no PubMed
  • Wilding JPH, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, 2021 (ensaio STEP 1). Ver no PubMed
  • Wilding JPH, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022. Ver no PubMed
  • Look M, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025. Ver no PubMed
  • Morton RW, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, 2018. Ver no PubMed

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