Por que a avaliação física da bioimpedância não é confiável? 

É muito comum que os pacientes me perguntem sobre os valores de percentual de gordura e como avaliá-los de maneira precisa. Primeiramente é importante entender que os métodos mais confiáveis para avaliação da composição corporal são os métodos de imagem, tal qual a densitometria óssea (DEXA), no entanto esse exame não é barato.

Assim, busca-se alternativas financeiramente mais em conta como é o caso das dobras cutâneas, cujo resultado pode ser introduzido em uma fórmula que vai nos dizer quanto aproximadamente se encontra o percentual de gordura em relação ao seu peso corporal total, ou então, pode ser comparado (tendo como base a mesma pessoa porém em datas diferentes) a partir de um valor que soma todas as dobras cutâneas (afinal a queima de gordura acontece no corpo todo e não somente em um único ponto) e gera um score total que pode servir de comparação, entre os dias de avaliação, para mensurar a evolução do emagrecimento.

A bioimpedância é confiável?

Em contrapartida, muito se fala sobre a eficácia de um outro método muito usado para avaliação da composição corporal, estamos falando do exame de bioimpedância. Trata-se de um exame em que se toca eletrodos nas mãos e pés para avaliar a corrente elétrica que passa entre os tecidos corporais do organismo e gera-se um valor que estima o percentual de gordura do corpo.

No entanto, muitas pessoas questionam se os valores de percentual de gordura apresentados pelo teste são confiáveis. A justificativa se faz em função de valores de percentual de gordura maiores que os reais. E de fato essa reclamação tem fundamento.

Algumas evidências científicas apontam que o exame de bioimpedância pode superestimar o valor de percentual de gordura em até 8 pontos percentuais a mais (Ritz et al., 2007). Ou seja, uma mulher com um valor real de percentual de gordura de 24%, ao fazer um exame de bioimpedância pode apresentar um valor de 32%. É comum a pessoa sair do exame desanimada, achando que o treino ou a dieta não funcionaram, quando o que falhou foi a régua.

Balança de bioimpedância é confiável?

A balança de bioimpedância que se compra em farmácia ou pela internet usa o mesmo princípio do exame: Uma corrente elétrica atravessa o corpo e o aparelho estima a gordura a partir da água corporal. A diferença é que, na balança, a corrente entra e sai pelos pés, e não pelas mãos e pelos pés ao mesmo tempo.

Essa diferença importa. Num estudo com atletas universitários, a bioimpedância de pé a pé até serviu para estimar a massa livre de gordura e para descrever o grupo, mas os autores foram explícitos: Ela não é válida para cravar o percentual de gordura de uma pessoa específica (Nickerson et al., 2019).

O trabalho mais completo nesse assunto testou 15 aparelhos de bioimpedância, quatorze deles de uso doméstico, contra um modelo laboratorial de quatro compartimentos, em 73 adultos. O resultado explica a confusão que eu vejo no consultório: A diferença média para o método de referência foi de 3,5 pontos percentuais para menos até 11,7 pontos percentuais para mais, dependendo do aparelho. Ao mesmo tempo, cada aparelho repetia o próprio número com muita constância, com erro de precisão entre 0 e 0,49% (Siedler et al., 2023).

É por isso que eu digo que a balança serve para uma coisa e não serve para outra: Ela é razoável para acompanhar a tendência ao longo das semanas, sempre no mesmo aparelho e na mesma condição, e é ruim para responder qual é o seu percentual de gordura hoje. Os próprios autores concluem que alguns modelos têm utilidade para acompanhar a composição corporal ao longo do tempo, e não para o número absoluto.

Por que o número muda de um dia para o outro?

Porque a bioimpedância não mede gordura. Ela mede a resistência que a corrente encontra e estima a água que corre no músculo; o que não é músculo, o aparelho trata como tecido adiposo. Como a água do corpo varia bastante, e como não existe uma equação validada para cada população, o erro do método é grande por natureza.

Curiosamente, o que mais assusta as pessoas não é o que mais pesa. Comer ou beber antes da medida altera o resultado em torno de 1 ponto percentual, uma mudança pequena e dentro da imprecisão do próprio método (Androutsos et al., 2015). O problema maior é o erro absoluto que mostrei acima, e é por isso que eu prefiro não basear conduta nenhuma apenas nesse número.

O que eu uso no lugar

Diante dessa situação, a dica é usar mais de uma forma de monitoração dos indicadores de emagrecimento, tal qual o valor do perímetro abdominal (popularmente chamado de circunferência abdominal) e os preditores da composição corporal como os valores associados ao percentual (somatório de dobras cutâneas) e também o método qualitativo subjetivo que diz respeito à análise da silhueta corporal registrada pelas fotos no espelho.

Na prática, circunferência abdominal, foto no espelho e desempenho na musculação resolvem a maior parte dos casos. Se você tem acesso à densitometria (DEXA) e o custo não pesa, aproveite: É o padrão ouro. E se a balança de bioimpedância já está em casa, use o que ela tem de bom, que é a tendência, e ignore a casa decimal. Se o peso parou de cair e você quer entender o que fazer, eu explico o caminho no artigo sobre platô no emagrecimento.

Referências

  • Ritz P, et al. Comparison of different methods to assess body composition of weight loss in obese and diabetic patients. Diabetes Research and Clinical Practice, 2007. Ver no PubMed
  • Siedler MR, et al. Assessing the reliability and cross-sectional and longitudinal validity of fifteen bioelectrical impedance analysis devices. British Journal of Nutrition, 2023. Ver no PubMed
  • Nickerson BS, Snarr RL, Ryan GA. Validity of foot-to-foot bioelectrical impedance for estimating body composition in NCAA Division I male athletes: A 3-compartment model comparison. Journal of Strength and Conditioning Research, 2019. Ver no PubMed
  • Androutsos O, et al. Impact of eating and drinking on body composition measurements by bioelectrical impedance. Journal of Human Nutrition and Dietetics, 2015. Ver no PubMed
PhD Santiago Paes

PhD Santiago Paes

Sou nutricionista e também bacharel, licenciado, mestre e PhD em Educação Física. E também sou pesquisador, escritor, possuo mais de 40 artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais e também sou autor do livro “Bases Nutricionais do Treinamento de Hipertrofia”.